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Xerxes - Xrs (SP)

Por Cleber Port | Categoria: Djs

“Uma espécie de mosca mutante escapou do laboratório de pesquisas do centro de experiências agrícolas”.

Michael de Oliveira Nicassio tem uma biografia musical rica e desconhecida em vários aspectos. Muitos sabem que foi XRS um dos principais responsáveis pela altíssima visibilidade internacional adquirida pelo drumnbass brasileiro, cujo ápice se deu em 2001 com a chegada de LK, parceria com DJ Marky, à parada da rede de tevê britânica BBC. Alguns, conhecedores de trabalhos anteriores como o Sarau (1999) e da parceria com Fernanda Porto, sabem que foi Xerxes o primeiro a conferir um certo caráter brasileiro, livre de estereótipos, a partir de arranjos construídos sobre uma programação de beats mínimos ao estilo de música dançante originário do Reino Unido chamado drumnbass. Integrantes veteranos da cena se recordam das reuniões organizadas por Xerxes, Ramilson Maia, Drumagick e Mad Zoo para pensar maneiras de desenvolver a cena marginalizada do estilo em São Paulo.

Trabalhos relativamente desconhecidos de um público mais largo, como o álbum friendtronik@periferia.com.zl; o tech-stepping do Sys-X; o experimentalismo do Kapitel 6; a trilha sonora e as faixas do Spinotes (notas giratórias dos experimetalistas eletro-acústicos com formação erudita Rael Gimenez e Luís Felipe de Oliveira sequenciadas por Xerxes) talvez tragam material, genuinamente brasileiro, para a atualíssima discussão sobre a importância do experimentalismo na música eletrônica.

Produtor artístico de Marky, Patife, Anderson Noise, Ramilson Maia (no início da carreira), Koloral e Marnel, Xerxes foi um incentivador veemente para que o DJ no Brasil se tornasse também produtor musical. Em alguns casos, o professor se tornou parceiro de criação, como no caso dos brilhantes Júnior Deep e Guilherme Lopes _ o Drumagick.

Michael nasceu em 1975 no Jardim Independência, bairro da Zona Leste de São Paulo que contava uma grande comunidade evangélica incluindo a sua família. Frequentando a escola dominical, Michael teve o primeiro contato com instrumentos musicais (saxofone e caixa) e aprendeu rudimentos de notação musical. Aos 16 anos, integrou por brevíssimo tempo uma banda de trash metal. Na escola ganhou o apelido de Xerxes, por causa de uma matéria sobre um toca-discos chamado Xerxes numa revista de áudio que tinha sempre consigo durante as aulas. Herdou do pai, Jorge, músico amador, a paixão por equipamentos. E também deu muito trabalho, porque o DJ e produtor hoje conhecido por ter adquirido um torno de corte de dubplates (matrizes para discos de vinil) desmontava tudo o que via pela frente: o rádio da mãe, a tevê da avó, o deck de rolo, toca-disco, receiver do pai e até a válvula do botijão de gás! Esse estranho traço de sua personalidade assusta até hoje músicos que frequentam seu estúdio caseiro, ao se depararem com microfones feitos de telefones antigos, soldas para cabos e hard discs dentro de caixas de antigas fitas de vídeo.

Graças a esse potencial criativo, Michael venceu em 1993 um concurso de produção musical com o remix Power 2 the People, produzido a partir de picotes mínimos de fita de rolo. Essa forma de edição de áudio surpreendeu a todos pela precisão e por obter muito a partir de pouquíssimo equipamento. O concurso tinha milhares de inscritos, dentre eles nomes como Bruno E. e Ramilson Maia.

Essa conquista foi decisiva para a escolha de seu ofício atual. Entre 1993 e 1995, Xerxes foi residente da casa de shows Aeroanta, onde se formou como disc-jóquei, dada a diversidade de estilos do repertório de cada noite. Encanta-se pela plasticidade e dinâmica do jungle ao frequentar, como tantos outros adolescentes da época, casas como Sound Factory, Toco, Overnight e Arena. Nesse período, seu trabalho diurno em um estúdio musical lhe permitiu o acesso a equipamentos de produção e aprimoramento dos conhecimentos em produção. Faixas experimentais, como “The Boom-Man”, foram tocadas nessa época de leste a sul nos berços paulistanos do jungle.

Em 1996 nasce Innerground, o primeiro selo nacional a lançar faixas de drumnbass. O projeto, idealizado por Xerxes e Ramilson Maia, apesar de sofrer com a produção artesanal de vinis (então prensados no Brasil), inova em termos musicais. É desta época o XRS Land, marcado pelo lançamento do EP From the Land to the City. O projeto, que culminou no álbum Sarau (Sambaloco Records, Trama, 1999), teve recepção unânime na cena eletrônica nacional e, mais surpreendente, aclamação em meios até então estranhos a músicas programadas. Registre-se que Só, faixa do álbum feita com Jorge Paizão e Marcello Marcky, foi a primeira faixa de drumnbass a utilizar vocais em português, inaugurando um movimento que, alguns anos depois, incorporado pelos britânicos como uma expressão autêntica do drumnbass, foi chamado sambanbass pelos americanos (Wikkipedia) e electropical pelos franceses (Coda).

Em meados de 1997, em plena crise do drumnbass paulistano, Xerxes é convidado por DJ Bispo a participar do projeto Cool Bass, no bar Glitter em São Paulo. Além de dar novo fôlego à cena, o projeto acaba por revelar novos talentos do estilo, tais como Marnel, Will e o duo Drumagick. Em 2001 e 2002 a residência no Jive contribui para ampliar o público de drumnbass. O repertório variado, orientado por uma linha soulful e jazzy conquista ouvidos e mentes que até então desconheciam o estilo.

Não se sabe ao certo o que João Marcelo Bôscoli e Pedro Mariano esperavam quando encomendaram a Xerxes a trilha sonora para o desfile da Rosa Chá na edição do São Paulo Fashion Week de 2001. Mas os filhos de Elis Regina certamente se surpreenderam ao ouvirem as interpretações da maior cantora do Brasil sequenciadas pelo produtor. O resultado foi a primeira apresentação do DJ e produtor no exterior, na edição novaiorquina do desfile. Desde então, DJ Xerxes, mais conhecido internacionalmente como XRS, rodou o mundo. Dentre as noites memoráveis, menciona a de Belém do Pará, o público mais caloroso do Brasil, as edições da Soul.ution de Marcus Intalex em Manchester, a de Tokyo no sistema de som perfeito do clube The Womb e a festa do Innerground no clube londrino The End.

Gilberto Gil, Daniela Mercury, Fernanda Porto, Hugh Burrows, Cleveland Watkiss e Singing Fats figuram entre os parceiros de produção de Xerxes. Como remixer, o produtor transformou faixas de Roberto Carlos, Otto, Marina Lima, Fernanda Abreu, Jorge Ben, Paulinho Moska, Dave Angel, Roy Ayers, Bebel Gilberto, US3, Tali e Fat Boy Slim. Alguns desses remixes ganharam as pistas de todo o mundo e a co-produção do rei da cena brasileira de drumnbass: DJ Marky. A parceria com este DJ rendeu também o álbum In Rotation, nome escolhido em homenagem às turnês da dupla pelo mundo. O Innerground se internacionaliza com a integração da Bulldozer e do próprio Marky como sócios, contribuindo para mostrar ao mundo uma leitura brasileira do drumnbass.

Este ano encerra-se com um novo projeto _síntese. Parceria com Christian B e L., o projeto objetiva valorizar o idioma e a cultura brasileira e promover o intercâmbio de artistas através de um evento itinerante e um jornal de cultura.

Site Oficial: http://www.djxrs.com/

English Version on the next page.

{mospagebreak}”a species of mutant fly escaped the laboratory of the agriculture research centre”  (sample from a mosca).

Michael de Oliveira Nicassio has a rich musical biography, although yet unknown in some aspects. Extremely mutant, Michael has adopted many nicknames: XRS, Xerxes, XRS Land, Sys-X and Kapitel 6.

Many people know that was XRS one of the key figures responsible for the high visibility of Brazilian drumnbass or even remember LK (produced with DJ Marky) being on BBC and many other charts. Some who have heard of his earlier works, such as the album Sarau (1999) and the partnership with the musician and singer Fernanda Porto, know that XRS was the first producer to print in drumnbass a Brazilian character, free from stereotypes, based on very peculiar arrangements constructed over a minimal beat programming. Veteran members of the Brazilian DnB scene recall the meetings organized by Xerxes, Ramilson Maia, Drumagick and Mad Zoo to find out a way of developing the style from the periphery of São Paulo. Relatively unknown works of a wider public (or those released only in Brasil), such as the album friendtronik@periferia.com.zl; the tech-stepping of Sys-X; the experimentalism of Kapitel 6; the movie soundtrack and the tracks of Spinotes (consisting in arrangements made by electro-acoustic musicians Rael Gimenez and Luís Felipe sequenced by Xerxes) perhaps bring some material for the permanent up-to-date debate around the importance of experimentation in electronic music.

XRS was one of the few in Brasil to support and stimulate that the DJ produced his/her own music. This direction led him to work together with Marky, Patife, Ramilson Maia, Drumagick, Koloral, Anderson Noise and Marnel in different times of his career. In some cases, the programming teacher turned to musical partner.

Michaels debut as producer was in 1993, when he won a contest with the remix “Power 2 the People”, a hardcore produced from tiny analog tape samples cut by hand and then spliced together. As a professional DJ, XRS started at Aeroanta, where he was resident between 1993 and 1995. As many other youths in São Paulo, he fell in love with jungles plasticity and dynamics while going to clubs as Sound Factory, Overnight, Toco and Arena. Some of his experimental tracks, like “The Boom-Man”, were played at that time by the heroes of jungle in South and East São Paulo: Andy, Koloral, Marky and Patife.

Today an acclaimed and internationally based label, Innerground was founded in 1996 by XRS and Ramilson Maia. It was the first Brazilian label to release drumnbass. Despite the severe lack of quality pressing conditions in Brazil, the label innovates in musical terms. The release of the EP “From the Land you the City” initiated a project named XRS Land. This project culminated in the album “Sarau” (1999). The track named Só, produced together with Jorge Paizão and Marcello Marcky, was the first to have vocals in Portuguese, and inaugurated a Brazilian influenced movement in drumnbass that, some years later, would be incorporated as an “authentic” expression of the style. In 2003, with the integration of Bulldozer and DJ Marky as partners, Innerground turns to be international, contributing to show to the world Brazilian perspectives of drum’n'bass.

Since his first international show in NY 2001, XRS has been to all continents djing. Among the memorable nights he mentions Belém do Pará, “the warmest public in Brazil”, the Soul.ution editions in Manchester, the perfect sound system of The Womb in Tokyo and the party of Innerground at The End in London. Among his musical partners figure acclaimed popular artists of many époques and styles, such as Gilberto Gil, Daniela Mercury, Fernanda Porto, Hugh Burrows, Cleveland Watkiss and Singing Fats.

As a remixer, XRS recreated tracks from big names in Brazil and abroad, such as Roberto Carlos, Otto, Marina Lima, Fernanda Abreu, Jorge Ben, Paulinho Moska, Dave Angel, Roy Ayers, Bebel Gilberto, US3, Tali and Fat Boy Slim. Some of these remixes were a co-production with the king of Brazilian drum’n'bass scene: DJ Marky. The partnership with Marky resulted the album “In Rotation”, released on 2004.

In 2005 he started a new project _síntese. In partnership with Christian B. and L., it aims to value Brazilian language (Portuguese), put out Brazilian various contemporary cultural expressions and promote the interchange of artists and their music through an itinerant event and a periodic of culture (to be released initially only in Portuguese).

Site Oficial: http://www.djxrs.com/


>  Cleber Portaro é dj, produtor de trilhas, apaixonado por drum'n'bass e fundador deste website criado em 2000. Nas horas vagas se arrisca como jornalista escrevendo sobre as "batidas-quebradas" > Artigos deste autor


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2 comentários

  1. Ana PaulaNo Gravatar setembro 5th, 2008 6:34

    Muita saudades de sair pra dançar e muita mas muita saudades de sair pra ver e ouvir o senhor Xerxes.

  2. [...] Blendz” será um programa mensal hospedado no website play.fm com sabor único” diz Xrs. Um dos acessórios mais importantes da cozinha chama-se Liquidificador (Blender em inglês), usado [...]

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